“AO ANJO DA IGREJA EM ÉFESO ESCREVE...” Tem início assim a carta endereçada à igreja de Éfeso, registrada no Apocalipse por João, provavelmente ao final do século primeiro.

Éfeso, nesse período, era a principal das cidades da Ásia. Portuária, constituía-se na principal porta de entrada para o continente e possuía entre sua população representantes de todas as camadas sociais, predominando porém, um ambiente abastado, culto e tremendamente corrompido, do ponto de vista bíblico. Era também um centro religioso, onde se destacava o culto à deusa-mãe dos gregos e romanos (Ártemis e Diana, respectivamente), o desenvolvimento de todos os tipos de práticas supersticiosas e artes mágicas (At 19:19), além do culto ao imperador romano.
A maioria dos autores concorda que a igreja de Éfeso tenha resultado do trabalho missionário de Paulo, Áquila e Priscila e que tenha sido pastoreada por Timóteo (I Tm 1:3) e João, demonstrando assim a solidez de suas origens e a qualidade do trabalho de base ali desenvolvido, uma vez que os líderes acima citados são reconhecidos como grandes personagens da história da igreja e poderosos instrumentos na propagação e aprofundamento da fé cristã.
Era uma igreja importante. De destaque. Com “história”, passado e presente dos quais se orgulhar. E mais, uma igreja que foi louvada por Deus em função de sua fidelidade na vida prática e nas questões doutrinárias (vs 2, 3, 6). Num contexto mais amplo de permissividade moral e doutrinárias, aliada às grandes perseguições impostas pelo império romano e ao desprezo da população não cristã, os crentes de Éfeso continuavam firmes em suas convicções, persistindo nelas, mesmo nas condições mais adversas. Era uma igreja fiel. Mesmo em meio a imensas dificuldades, cumpria com seus deveres, realizava seus cultos, repelia os falsos mestres, odiava o pecado e não esmorecia em seu afã pela obra do Senhor.
Porém, sob o olhar penetrante de Deus, que vê além das aparências e que conhece as motivações mais íntimas, aquela igreja foi achada em falta: “tenho, porém contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.” (v.4).
Sim. A igreja ativa e ortodoxa continuava desenvolvendo suas atividades, porém o verdadeiro motivo para suas ações deixara de existir: o amor apaixonado, incondicional, flamejante, entusiástico, fervoroso, havia se apagado. As lutas cotidianas haviam esgotado a ternura e o fogo interior que movia aqueles crentes em direção ao seu Senhor. A base para sua existência estava sendo minada por uma ativismo frio, mecânico, por uma pureza doutrinária estéril, hermética e por uma religiosidade que não satisfazia os anseios de Deus.
Lembrar. Arrepender e voltar. São os três verbos que demonstram a oportunidade dada por Deus aos efésios para que reconsiderassem sua posição, após perceberem a gravidade de seus equívocos. Nem tudo estaria perdido se houvesse arrependimento e transformação.
Entretanto, a própria existência da igreja estaria ameaçada seu candeeiro poderia ser removido caso os erros persistissem. Se a motivação verdadeira não retornasse, se a chama do amor não voltasse a arder e a consumir o coração daqueles crentes, tudo o mais seria em vão. (v. 5).
Por outro lado, contrastando com a dureza da exortação de Deus, a carta se encerra com uma mensagem de esperança, de vitória àqueles que fossem sensíveis à mensagem proclamada. Ainda havia esperança.
Aliás, sempre haverá esperança, enquanto Deus não se calar e estivermos dispostos a ouvi-lo.
Que sejamos fiéis. Que não sejamos achados em falta. Que Deus seja o alvo supremo da nossa devoção apaixonada. E que não haja motivos para que o nosso candeeiro seja removido.
Miss. Shirley